20090101

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em um painel de cores,
simples aprendizes de vozes,
vou soltando a bainha da minha saia
envolvendo toda a audiência
que, num olhar comprido,
solta o verbo e canta
quase igual a minha própria voz

giro e me rodopio no ar
levantando o véu
e fazendo girar também
qualquer brecha de sonho
ou pedacinho de uma ilusão perdida

uma mentira contada,
colorida como ela só,
se transforma em,
nada mais, nada menos,
um delicioso conto de verão...

e da minha saia sai também
o desejo enorme de ver quebrado
o encanto que nos foi jogado
lá nos idos de 85
e, já faz tempo, deveria ter-se ido embora,
já que não é encanto bom...

feliz ano que se inicia
pra quem, como eu,
com saia se delicia

20081207

"Pensarolando"

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Gosto de ver, nas dobras e sombras da cortina, rostos e traços de gente desconhecida. Gente e situações.

É como aquelas pessoas que vêem coelhos ou carneirinhos nas nuvens, quando olham para o céu.

Eu gosto de olhar para a cortina do quarto, aberta sobre o janelão de vidro. A luz, que vem de fora, atravessa a cortina somente em alguns pontos. A sombra e os vários traçados do tecido, tramas que correm desnorteadas, parecem, muitas vezes, formar traços que, ao seu tempo, parecem formar desenhos complexos.

Vejo rostos de pessoas que não conheço. Vejo rostos de gente bem conhecida. Vejo bichos e plantas. Vejo estátuas, às vezes.

Já tentei desenhá-los. Não deu certo. Desisti.

Resolvi, daí, somente observá-los.

Assisto os desenhos se formando na minha mente, a partir das tramas e sombras do tecido. Deixo a mente relaxada e esqueço de vários problemas.

Também gosto de fazer meus "desenho mentais" no granito. Olho para o piso e os desenhos vão se formando. Não penso em nada. Eles simplesmente surgem.

Dia desses comentei com alguém a respeito do desenho que via, naquele momento, na cortina. Não esperei o desenho acabar de se desenhar e já fui descrevendo-o. A idéia foi aceita, como um desafio que teria sido proposto. E ficou-se observando a cortina e descrevendo o que se via.

A partir daí, percebi que parei de deixar a cortina desenhar a si mesma.

Tentava acompanhar o desafiador e, com isso, consegui simplesmente, desenhar coisas, pessoas, objetos nas tramas e sombras na cortina.

Havia de deixá-los desenharem-se a si próprios. O traço surgia e eu o acompanhava com o olhar.

Mas não conseguia mais. Então fazia, agora, traços tortos e desalinhados. Não seguia mais o traço, mas deixava-o seguir meu olhar. O pensamento vinha antes. O pensamente era tornitruante. Agonizante.

O budismo fala de deixar a mente limpa, ao meditar, para poder assim pensar 'melhor' no problema. Mas como pensar melhor se o que se propõe é deixar de pensar no problema?

Nós ocidentais, meros expectadores dos conhecimentos ancestrais do mundo, demoramos para entender. Para haver a entrega, a mente tem de estar limpa. Frouxa. Solta. Relaxada.

E assim como os traços surgem das tramas e sombras do tecido laranja da cortina aberta sobre o janelão, surgem as soluções para os problemas. E assim como os olhos apenas acompanham o traço formar desenhos complexos, pessoas, rostos, situações, o pensamento deve acompanhar a formação do destino.

A mente relaxa e as coisas acontecem.

Esses dias uma chefe minha com uma mentalidade um pouco complexa, digamos assim, me disse, de uma forma muito agressiva (sic) que eu arrogante demais para trabalhar com ela.

Sim, eu sou arrogante.

Mas entendo a arrogância como uma exacerbação de uma característica que prezo em qualquer um: iniciativa. Determinação também está contida nesse conjunto.

Estava em dúvida, no entanto, era no próximo passo - no caso, meu. Mas acho que devo fazer como quem observa o desenho desenhar a si próprio nas tramas e sombras da cortina...



Imagem: Alvalentine

20081124

20081117

Morte e vida, Severina

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Dia desses eu morri.

Passeava por um lugar aberto, um hectare e meio de terra descampada, e um raio me pegou. Fatal prenúncio de chuva.

Ninguém viu, nem ouviu falar. Ali fiquei estendida dias e dias a esperar viva alma.

E esperei.

Certo dia me encontraram. Alegria. Era um rapaz. Veio e assustou-se e depois foi chamar alguém. Talvez se informar sobre o 'presunto': o que faria, pra onde levaria o corpo, a quem avisaria. Essas coisas da prática vida moderna urbana contemporânea - e quaisquer outras mil palavras que, juntas, denotam um 'quê' de atualidade.

Dia desses eu morri. Mas vivi pra contar.

Cai no chão com uma dor terrível na cabeça. Pensei na minha filha, no marido, no irmão. Dizem mesmo que, na hora da morte, quando a maldita se posiciona face a face com um indivíduo qualquer, o escolhido da vez, não há como fugir. Não vi a peça, mas vi minha vida passar na frente dos meus olhos - e disso também não há como fugir.

E não vi nada ruim. Tudo o que fiz de mal, todas as mentiras que contei e todos os que matei (ainda que em pensamento) não lembrei de nada disso.

Pensei nas coisas boas. Sorrisos e dias de sol. Praia. Baldes e castelos de areia. Roupas de grife. Paris, Roma e Atenas. Beijo de língua no priminho. Laço de fita no cabelo, no primeiro dia de aula. Lancheira cheia.

Nada. Tudo.
Tudo o que lembrei foi bom. E por isso foi bom ter morrido.